O monstro da experiência

I’ll never be able to. Tudo é novo pra mim, mesmo a tristeza. Então preciso sentir o medo que sinto. Despersonalizar é como conseguir escrever só em infinitivos. Cause different impressions. Afundar na imagem de um santo enquanto meço todos meus passos até a parte sagrada. Compor narrativas inevitáveis. Impetuoso instinto de encontrar valor nas palavras que profano. Ontem estive perto do céu e aquela luz corpórea da lua atravessou minha pele, como uma cruz que resvala no peito, e assim começaram algumas dificuldades. Passou o céu daquelas minhas tardes e eu agora tenho lutado contra a despersonalização. Resgate da minha subjetividade desaparecida, esgotada e mantida em precipícios de abismos. O mundo que eu jamais vou alcançar. Nunca quis esclarecer as minhas ideias mas me sinto cada vez mais longe da comunicação. Distante a ponto de não comunicar. A falta de expressão. Não resta nem materialidade nas palavras. Sentenciaram a morte da fonética. Uma vez que enquanto humanos, desapareceremos. Perecer não é nenhuma novidade. Mas o esgotamento. Sobre esse ninguém falou. É o frio que sinto que me mantém viva. A tontura no corpo. O formigamento dos pés. E se tudo for sensação de pré-morte? Eu deveria aproveitar para parar de me justificar. Não interessa porque escrevo porque amo porque trabalho e porque não supero essas lembranças que convivem em mim como parasitas. Dessa vez eu não quero emocionar as pessoas com a autopiedade das minhas palavras. Eu quero que elas morram comigo. Não vejo saída mais egoísta que lutar pela sobrevivência. O medo da morte? Covardia. Sempre me incomodaram os diálogos sobre a grandeza humana. Nada mais do que a arquitetura retórica do vazio das palavras. O malabarismo. Já percebeu que sua língua ficou cansada? Precisou respirar alguns ares, pausar pra alguns suspiros. E não existe nenhuma mensagem que sobrevive as atrozes do tempo. Estou falando de muito tempo. E o nosso tá acabando. Se para confirmar a solidez da sua humanidade você justifica quantificando os séculos da existência humana, me assusta. Eu sou assustada com tudo, você me diria. Sou, principalmente, morro de medo de você. E eu tenho razão por todos os meus medos. Tento me proteger mas acho que deveria ter deixado você me matar. Terceirizar esse ônus.

A entrega amorosa como resistência política dos afetos: Catulo exuzado em Bebedouro

A entrega amorosa como resistência política dos afetos: Catulo exuzado em Bebedouro

escamandro

Ainda que o gênero elegíaco exista pelo menos desde o século VII a.C. na Grécia arcaica e tenha se tornado popular graças a poetas como Sólon, Tirteu e Mimnermo, por exemplo, aquilo que veio a se desenvolver em Roma, durante o Período Augustano, estabeleceu-se como um modo muito particular desse gênero, chegando quase a ser considerado um gênero à parte devido à sua peculiaridade. A Elegia Erótica Romana, portanto, gênero sem precedente ou paralelo exato na antiguidade, desenvolveu-se na segunda metade do último século antes de nossa era e parece ter se diluído com a mesma velocidade que surgiu.

Composto em dísticos elegíacos, isto é, um hexâmetro dactílico seguido de um pentâmetro dactílico, muito provavelmente para ser acompanhado por uma espécie de flauta (provavelmente o aulos), essa forma poética, que originalmente tinha seus temas bastante variados, como o amor, a guerra, a sapiência etc, tem suas origens um tanto…

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Mandamentos

Deixar que o texto se molde por si só. Abdicar do controle. Deixar que as regências verbais mudem na fala. Ver o texto se escrevendo sozinho. Como se tivesse criado um monstro: um Frankenstein. Alcançar aquele sentimentalismo romântico mas abdicar da ideia de Gênio. Compreender os universos que repousam em cada palavra. Prosseguir com as mesmas como quem espera o tempo para dar significado as coisas. Mudar o que se entende por Verdade. Matar alguma vã filosofia. Tolerar o juízo racional. Dar preferência aos sentimentos humanos como se nascessem de algum estatuto divino. Cutucar personas e personagens, misturá-los em diálogos vãos e rudes. Matar a reflexão. Falar com as paredes. Arrastar o texto. Até que o leitor diga: 

— Chega!  

Não mitificar o ofício. Não esbravejar o ócio. Não premeditar o fracasso. Não alterar a forma. Nem a ordem. Não fraquejar com as rasuras. Não impor limites. Nem tempo. Não investigar as causas da escrita. Não embaçar as vistas enquanto fala, temerosamente, o que se pensa ou sobre o que viveu durante os anos. Ao mesmo tempo, não mostrar-se no texto. Não abrir caminho para a nudez. Não clamar outro objeto artístico. Não trocar as semioses. 

fim de ano

ao abrir a janela o sol invadiu o cômodo ardendo os olhos, desviou o olhar e sentou no colchão:
– hoje tá parecendo domingo
– tá mesmo
– mas que dia é hoje? sexta?
– acho que é

jacarés

havia um mito nessa terra que se você deixasse aplicarem um líquido dentro de você
você virava um jacaré
não sei se você viu como isso tem sido dito nas notícias
mitos e jornais
mas o que sobra daquela nossa mitologia
é noticiar que eu ainda
talvez sinta tudo muito
e eu não cheguei a falar o quanto temo dizer
mas esse sentimento resguarda minha humanidade
como se eu fosse maior, dez vezes maior
e pudesse enfrentar jacarés
e as notícias
mas nunca você
jamais você



sabia que eu escrevo?

– grande coisa

– ficar longe de São Paulo, estar longe de São Paulo, tenho pensado muito nisso. Há semanas atrás queria fazer comédia, perdi aquele humor. Alguma coisa nessa cidade cheira muito mal, algo de muito ruim permanece aqui, e fede, não tô falando de rio sujo, de poluição, de todas as informações, mas tô falando de alguma coisa, difícil de nomear. Sempre querer dizer muito sem dizer, ficar em silêncio, e dizer tudo. Olhar pra dentro e fazer mudanças internas, outras externas, como estar longe de São Paulo. O mais longe possível, como correr muito até estar há 600km de distância, e sentir saudade. Desenhar numa folha a melhor coisa a se fazer. Não saber onde ficar. Temer tudo. E nisso não temer nada.

– do que você tá falando?

– nada.